Olá, o meu nome é Ayo, que significa alegria e felicidade, apesar de muitas vezes ter duvidado. Aquilo que conheço de mim, que é muito pouco, é que nasci em Moçambique e que um dia tive um pai e uma mãe que (provavelmente…) me amavam muito. Vim para Portugal com sete anos e só a saber falar Macua, que é a seguir ao português, a língua mais falada em Moçambique.
Nunca ninguém me disse porque é que cá vim parar ou o que aconteceu aos meus pais…. Sim, eu sou órfã, ou melhor era…
Toda a minha vida sempre se resumiu a uma coisa, uma coisa chamada sonho…
Quando cheguei a Portugal, era uma criança assustada que nem português sabia falar. A minha adaptação não foi fácil, tenho de admitir. Lembro-me de chegar ao orfanato, da primeira vez…. Era a única rapariga de outra cor, coisa que não me agradava a mim, nem às minhas colegas de quarto. Na semana seguinte, no entanto, já estava na escola a aprender. O primeiro passo foi a língua, tive de aprender a falar português (no início foi um pouco difícil, mas nesta cabeça não há nada que não entre!), logo a seguir tive de aprender a ler. Passados uns meses se não fosse a minha cor, ninguém diria que eu tinha vivido os meus primeiros sete anos de vida em Moçambique!
Arrisco-me mesmo a dizer que passava facilmente por portuguesa. Mas as minhas colegas de quarto continuavam a não gostar de mim. E eu não percebia porquê. Assim que entrava no dormitório todas se calavam e à noite quando tinha pesadelos e precisava de ir à casa de banho para me recompor, tinha de lá dormir, pois assim que saía a porta do quarto era fechada e trancada.
Com o passar do tempo todas começaram a desaparecer, o dormitório foi ficando vazio.
Para onde iam elas? Também nunca ninguém me disse…. Fiquei sozinha…
Um dia, Ana a Assistente Social do orfanato, entra no meu quarto, num fim de semana solarengo, os beliches todos vazios à exceção do meu, onde me encontro a ler. Entra sem bater.
Entra contente. Segundo diz… querem adotar-me. Estamos a dois meses do Natal e Ana garante que vai ser rápido, que ainda vou passá-lo com a minha nova família. Será que quero ser adotada?
Tenho treze anos e estamos a dois meses do Natal…. Cá, no orfanato, é uma época solitária. Antes de vir para cá nunca o tinha festejado, nem sabia o que era… Apesar de recebermos um presente que é normalmente uma peça de roupa quente e de comermos bem, neste momento para mim o Natal é apenas a altura do ano em que me delicio e como pelo resto do ano, sinto um vazio.
O orfanato está a passar por dificuldades, e nós somos cada vez menos. A Dra. Eunice, a Diretora, está doente, o médico diz que as coisas não estão fáceis…
Será que quero ser adotada? Foi o momento com que sempre sonhei durante tantos anos.
Não sei como ser uma boa filha. Com o que vou eu sonhar, o que vou eu ambicionar? Ayo, ouço ao longe. A Ana está a chamar-me. Parece contente… está animada! A alegria dela é contagiante, acabo por me deixar ir na celebração. Sem intenção, penso, confirmo que quero ser adotada. A minha nova vida está a começar.
A uma semana do Natal conheço a minha nova família, parecem simpáticos. Vou ter uma irmã da minha idade, ela é bonita e chama-se Vera. A Ana deixa que nos conheçamos melhor e percebo que me querem levar para longe, um sítio chamado Guarda.
Dois dias antes da véspera de Natal chego à Guarda, está frio, acho que estou em hipotermia!
A cidade está toda iluminada (nem sequer sabia que se iluminavam as casas no Natal), as lareiras estão acesas (nunca tinha visto nenhuma), sinto-me em casa…
Natal… A minha família…. Oh como sabe bem dizê-lo… A minha família esperou por mim para enfeitarmos a casa, foi mesmo divertido. Encaixei, cuidadosamente, claro, a estrela no topo da árvore de Natal já toda iluminada. Talvez o Natal não seja assim tão mau.
Recebo dois beijos de boa noite. A cama é confortável, mas estranha. Ouço bater à porta, é a Vera…. Deita-se na minha cama, dormimos abraçadas.
Véspera de Natal, a casa está numa azáfama! Estou a ajudar a mãe a fazer a comida e tudo cheira maravilhosamente bem. São todos tão simpáticos!
A árvore está repleta de presentes e chegou a hora de os abrir. São quase todos para mim. Abro-os e sinto-me feliz, mas de repente sinto o sorriso que tenho estampado no rosto desvanecer.
O pai e a mãe ficam surpresos e perguntam o que mais podem fazer por mim, se gostava de mais algum presente. Anuo, quase que automaticamente. Peço-lhes para doarem os presentes todos que recebi ao meu orfanato. Perguntam-me qual o presente que gosto mais, para ficar com ele.
Serenamente, respondo que é com eles que quero ficar, são o meu presente. Damos um abraço de família e ao desviar o olhar reparo que está a nevar…. Corro lá para fora para sentir o frio, sinto- o até aos ossos, mas isso não me impede. Estou feliz! O Natal é quem está presente e não os presentes.